sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pã, filho de Hermes


É um deus rústico da Arcádia: deus dos pastores, das pastagens, dos rebanhos
Afrodite, Pã e Eros (Delos)
de animais, selvagens ou domésticos. Ama a música e a arte, mas é motivo de riso ao dançar ou cantar. Toca a flauta (de Pã) que criou. Seu nome, que vem de rústico, só no período clássico foi associado a “tudo”. Extremamente barulhento, sua aproximação provoca pânico – palavra que tem origem em seu nome – mesmo porque sua natureza intensamente sexual é agressiva. Já nasceu adulto, com barba e peludo. Tem pés de bode, rabo, chifres e um nariz ridículo. Filho de uma ninfa que o rejeitou por repugnância, busca o amor das ninfas, que fogem dele. 
 
É filho de Hermes, que o levou para o Olimpo, envolto numa pele de coelho, onde Dioniso se alegrou com ele. Hermes, vindo da Trácia, tem representação itifálica, é o aspecto masculino da Deusa. É, como Hécate, morador das encruzilhadas. É o psicopompo, representado carregando Dioniso, o que o assemelha a Silenos, um sátiro – fisicamente parecido com Pã. No par Hermes-Dioniso o hermético-espiritual e o animal-divino se igualam, como nos mistérios orfico-dionisíacos.
Mais tarde, Satanás será representado fisicamente semelhante a Pã. Também Saturno é por vezes associado a esta imagem.
De Hermes vem a palavra hermetismo, sinônimo de esoterismo: o que é fechado, que pertence ao círculo interno. “Hermeticamente fechado” todo mundo sabe o que significa. Acabou ficando com o significado de secreto, mas não é esta a idéia inicial. O hermético era transmitido pela iniciação, porque não seria compreendido sem uma alteração da consciência. Hermes como psicopompo, condutor de almas, conduz os mortos até a outra margem, mas também conduz o neófito na iniciação. Como mensageiro dos deuses, com suas sandálias e capacete alados une o céu e a terra. Na guerra de Tróia usa seus escudeiros Tânatos – morte – e Hipnos – sono. É também pelos sonhos que os deuses enviam suas mensagens.
Hermes é também o deus dos mentirosos e dos ladrões. Seu neto Autólico, avô de Ulisses, foi o maior dos ladrões. Simboliza o trickster, o trapaceiro interior, muito importante na individuação: é aquilo em nós que faz com que nos coloquemos em situações que não queríamos.
O divino Hermes e o terrestre Pã são inseparáveis. A realização espiritual só acontece associada às manifestações físicas da natureza corpórea. Do filósofo Sócrates nos chegou através de Platão esta oração:
“Amado Pã, e vós outros deuses aqui ao nosso redor, permiti que eu seja belo na alma e que tudo que me for destinado seja aceito alegremente. Permiti que eu me considere rico e sábio, e que só tenha o ouro necessário a um homem frugal... Acaso devo dizer algo mais, Fedro? Pedi tudo aquilo de que necessito.”
Fonte: Hans-Dieter Leuenberger, O que é esoterismo